quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Morte e Vida Severina

APROXIMA-SE DO RETIRANTE O 
MORADOR DE UM DOS MOCAMBOS 
QUE EXISTEM ENTRE O CAIS 
E A ÁGUA DO RIO 
 
  

—— Seu José, mestre carpina, 
que habita este lamaçal, 
sabes me dizer se o rio 
a esta altura dá vau? 
sabe me dizer se é funda 
esta água grossa e carnal?  

—— Severino, retirante, 
jamais o cruzei a nado 
quando a maré está cheia 
vejo passar muitos barcos, 
barcaças, alvarengas, 
muitas de grande calado.  

—— Seu José, mestre carpina, 
para cobrir corpo de homem 
não é preciso muito água: 
basta que chega o abdome, 
basta que tenha fundura 
igual à de sua fome.  

—— Severino, retirante 
pois não sei o que lhe conte 
sempre que cruzo este rio 
costumo tomar a ponte 
quanto ao vazio do estômago, 
se cruza quando se come.  

—— Seu José, mestre carpina, 
e quando ponte não há? 
quando os vazios da fome 
não se tem com que cruzar? 
quando esses rios sem água 
são grandes braços de mar?  

—— Severino, retirante, 
o meu amigo é bem moço 
sei que a miséria é mar largo, 
não é como qualquer poço: 
mas sei que para cruzá-la 
vale bem qualquer esforço.  

—— Seu José, mestre carpina, 
e quando é fundo o perau? 
quando a força que morreu 
nem tem onde se enterrar, 
por que ao puxão das águas 
não é melhor se entregar?  

—— Severino, retirante, 
o mar de nossa conversa 
precisa ser combatido, 
sempre, de qualquer maneira, 
porque senão ele alarga 
e devasta a terra inteira.  

—— Seu José, mestre carpina, 
e em que nos faz diferença 
que como frieira se alastre, 
ou como rio na cheia, 
se acabamos naufragados 
num braço do mar miséria?  

—— Severino, retirante, 
muita diferença faz 
entre lutar com as mãos 
e abandoná-las para trás, 
porque ao menos esse mar 
não pode adiantar-se mais.  

—— Seu José, mestre carpina, 
e que diferença faz 
que esse oceano vazio 
cresça ou não seus cabedais 
se nenhuma ponte mesmo 
é de vencê-lo capaz?  

—— Seu José, mestre carpina, 
que lhe pergunte permita: 
há muito no lamaçal 
apodrece a sua vida? 
e a vida que tem vivido 
foi sempre comprada à vista?  

—— Severino, retirante, 
sou de Nazaré da Mata, 
mas tanto lá como aqui 
jamais me fiaram nada: 
a vida de cada dia 
cada dia hei de comprá-la.  

—— Seu José, mestre carpina, 
e que interesse, me diga, 
há nessa vida a retalho 
que é cada dia adquirida? 
espera poder um dia 
comprá-la em grandes partidas?  

—— Severino, retirante, 
não sei bem o que lhe diga: 
não é que espere comprar 
em grosso tais partidas, 
mas o que compro a retalho 
é, de qualquer forma, vida.  

—— Seu José, mestre carpina, 
que diferença faria 
se em vez de continuar 
tomasse a melhor saída: 
a de saltar, numa noite, 
fora da ponte e da vida? 
 
 
  

UMA MULHER, DA PORTA DE 
ONDE SAIU O HOMEM, 
ANUNCIA-LHE O QUE SE VERÁ 
 
 
 —— Compadre José, compadre, 
que na relva estais deitado: 
conversais e não sabeis 
que vosso filho é chegado? 
Estais aí conversando 
em vossa prosa entretida: 
não sabeis que vosso filho 
saltou para dentro da vida? 
Saltou para dento da vida 
ao dar o primeiro grito 
e estais aí conversando 
pois sabeis que ele é nascido. 
 
O CARPINA FALA COM O RETIRANTE QUE 
ESTEVE DE FORA, 
SEM TOMAR PARTE DE NADA 
 
 
  

——  Severino, retirante, 
deixe agora que lhe diga: 
eu não sei bem a resposta 
da pergunta que fazia, 
se não vale mais saltar 
fora da ponte e da vida 
nem conheço essa resposta, 
se quer mesmo que lhe diga 
é difícil defender, 
só com palavras, a vida, 
ainda mais quando ela é 
esta que vê, severina 
mas se responder não pude 
à pergunta que fazia, 
ela, a vida, a respondeu 
com sua presença viva. 
 
  

E não há melhor resposta 
que o espetáculo da vida: 
vê-la desfiar seu fio, 
que também se chama vida, 
ver a fábrica que ela mesma, 
teimosamente, se fabrica, 
vê-la brotar como há pouco 
em nova vida explodida 
mesmo quando é assim pequena 
a explosão, como a ocorrida 
como a de há pouco, franzina 
mesmo quando é a explosão 
de uma vida severina. 

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