— Fernão, você foi banido uma vez. O que é que o leva a pensar que alguma das
gaivotas do seu tempo o ouviria agora? Você conhece o provérbio, que é bem verdade:
"Vê mais longe a gaivota que voa mais alto". As gaivotas que você deixou estão no solo,
gritando e lutando umas com as outras. Estão a mil e quinhentos quilômetros do paraíso, e
você diz que lhes quer mostrar o paraíso, de onde estão! Fernão, elas nem vêem a própria
ponta das asas! Fique aqui. Fique aqui ajudando as novas gaivotas, essas que estão
suficientemente cultivadas para compreenderem o que você lhes tem a dizer. — Calou-se
um momento, e depois disse: — Que teria acontecido se Chiang tivesse regressado aos
velhos mundos dele? Onde estaria você hoje?
A última frase era significativa, e Henrique tinha razão. "Vê mais longe a gaivota
que voa mais alto."
— Henrique, que vergonha! — exclamou Fernão, reprovador. — Não seja tolo!
Afinal, o que é que estamos treinando todos os dias? Se a nossa amizade depende de
coisas como o espaço e o tempo, então, quando finalmente ultrapassarmos o espaço e o
tempo, teremos destruído a nossa fraternidade! Mas, ultrapassado o espaço, tudo o que
nos resta é Aqui. Ultrapassado o tempo, tudo o que nos resta é Agora. E entre Aqui e
Agora você não crê que poderemos ver-nos uma ou duas vezes?
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